Por Dr. Armando Lepore Junior – Médico do Trabalho – CRM-SP 71.884 - RQE 46766
Todos os anos, o mês de setembro nos convida a falar sobre um assunto que ainda provoca silêncio, medo e preconceito: a saúde mental e a prevenção do suicídio.
O Setembro Amarelo é uma oportunidade para lembrar que o sofrimento emocional deve ser levado a sério e que procurar ajuda não deve ser motivo de vergonha.
Em 10 de setembro é celebrado o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Em 2026, a campanha internacional reforça uma mensagem especialmente importante: precisamos mudar a maneira como falamos sobre o suicídio e criar espaços onde as pessoas possam conversar sobre aquilo que estão sentindo.
Ouvir pode salvar vidas!
Saúde mental faz parte da saúde
Durante muito tempo, falar sobre ansiedade, depressão, esgotamento emocional ou pensamentos relacionados à morte foi cercado por preconceitos.
Hoje sabemos que a saúde mental deve ser tratada com a mesma atenção destinada à saúde física.
Momentos de tristeza, preocupação ou dificuldade fazem parte da vida de todos nós. Entretanto, quando o sofrimento se torna intenso, persistente ou começa a interferir significativamente na rotina, nos relacionamentos, no trabalho ou no autocuidado, procurar ajuda profissional pode ser necessário.
Existem sinais de alerta?
Não existe um único comportamento capaz de indicar, com certeza, que uma pessoa esteja apresentando pensamentos relacionados ao suicídio ou ideação suicida.
Entretanto, algumas mudanças merecem atenção, principalmente quando aparecem juntas ou representam uma alteração importante no comportamento habitual.
Entre elas podemos observar:
• isolamento de familiares, amigos ou colegas;
• perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas;
• sentimentos persistentes de tristeza ou desesperança
• mudanças importantes de comportamento ou de humor;
• redução importante do autocuidado, como deixar de tomar banho, trocar de roupa ou cuidar da própria aparência;
• falas frequentes sobre morte;
• comentários indicando que a vida perdeu o sentido;
• manifestações de desejo de desaparecer ou de não continuar vivendo.
Esses sinais não devem ser interpretados como “fraqueza”, “drama” ou simplesmente uma tentativa de chamar atenção.
Podem representar sofrimento real e precisam ser acolhidos com responsabilidade.
Falar sobre suicídio aumenta o risco?
Esse é um dos mitos mais importantes a serem superados.
Conversar sobre o assunto de maneira cuidadosa e acolhedora não incentiva o suicídio.
Ao contrário, perguntar a alguém que demonstra sofrimento como ela está se sentindo pode criar uma oportunidade única para que essa pessoa fale sobre aquilo que vinha enfrentando sozinha.
O mais importante é ouvir sem julgamento algum.
Frases feitas e corriqueiras como “isso é falta de ocupação”, “você não tem do que reclamar ” ou “existem pessoas em situação muito pior” dificilmente ajudam.
Às vezes, uma frase simples pode ser muito mais útil:
“Percebi que você não está bem. Quer conversar? Gostaria de poder te ouvir!”
O que fazer quando alguém demonstra sofrimento importante?
Ouça. Evite julgamentos. Demonstre disponibilidade e incentive a procura por ajuda profissional.
Não tente oferecer soluções prontas ou respostas simplistas. Cada situação é única e pode exigir uma abordagem diferente.
Se possível, ajude a pessoa a chegar até esse atendimento.
Quando houver risco imediato de a pessoa causar algum dano a si própria, ela não deve permanecer sozinha e deve ser encaminhada imediatamente para atendimento de urgência. Uma situação de risco iminente de suicídio exige avaliação profissional imediata.
E qual é o papel das empresas?
O ambiente de trabalho ocupa uma parcela importante da vida adulta e também pode contribuir para a promoção da saúde mental.
Isso não significa transformar gestores ou colegas em profissionais de saúde mental.
Significa contribuir para ambientes nos quais as pessoas possam procurar ajuda sem medo de humilhação ou estigmatização, desenvolver relações de respeito, combater assédio e violência no trabalho e disponibilizar informações claras sobre os canais de apoio existentes.
Também é importante compreender que os problemas de saúde mental são geralmente multifatoriais. Questões pessoais, familiares, sociais, econômicas, biológicas e profissionais podem participar, em diferentes proporções, do sofrimento de uma pessoa.
Por isso, acolher alguém não significa procurar imediatamente um culpado ou mesmo um motivo.
Significa reconhecer que existe uma pessoa precisando de atenção.
Começar uma conversa pode fazer diferença
Muitas vezes não conseguimos perceber aquilo que alguém está enfrentando ou sentindo. Muitos de nós não fomos preparados para isso.
Muitas pessoas continuam trabalhando, estudando, cuidando da família e cumprindo compromissos enquanto vivem um sofrimento emocional significativo.
Por isso, o Setembro Amarelo também nos lembra da importância de prestar atenção uns aos outros.
Perguntar. Ouvir. Evitar julgamentos. Orientar. Encaminhar para ajuda quando necessário.
Uma conversa não substitui o acompanhamento de um profissional de saúde, mas pode ser o primeiro passo para que alguém procure esse acompanhamento.
Onde procurar ajuda?
Em situações de sofrimento emocional, procure um profissional de saúde ou serviço de saúde mental.
A rede pública de saúde disponibiliza atendimento por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades de Pronto Atendimento (UPA), pronto-socorros e hospitais, conforme a necessidade.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.
Em situações de risco imediato ou emergência, procure um serviço de urgência e emergência ou acione o SAMU pelo telefone 192.
Setembro Amarelo: falar pode ser o começo. Ouvir também pode ser uma forma de cuidado.
OPUS Saúde – Saúde Ocupacional com prevenção, conhecimento e cuidado.