Logo
Logo

Saúde Mental no PGR: Como Pequenas e Médias Empresas Devem Tratar os Riscos Psicossociais

Opus Saúde
Saúde Mental no PGR: Como Pequenas e Médias Empresas Devem Tratar os Riscos Psicossociais

Por Dr. Armando Lepore Junior — Médico do Trabalho — CRM-SP 71.884

A gestão de Saúde e Segurança no Trabalho mudou de forma importante em 2026. Com a atualização da NR-1, os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho passaram a integrar expressamente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

Na prática, isso significa que pequenas e médias empresas também precisam olhar para situações como sobrecarga de trabalho, assédio, falta de apoio, conflitos, pressão excessiva e problemas na organização das atividades.

Isso não significa transformar o PGR em uma avaliação psicológica dos funcionários.

O foco é outro: identificar condições relacionadas à organização e à gestão do trabalho que possam representar risco à saúde e adotar medidas de prevenção.

Como médico do trabalho, considero essa distinção especialmente importante. A empresa não deve tentar diagnosticar ansiedade, depressão ou qualquer outro transtorno por meio do PGR. O gerenciamento deve analisar o trabalho, seus processos e a forma como as pessoas estão expostas a determinadas condições.

O que são riscos psicossociais relacionados ao trabalho?

São fatores relacionados à concepção, organização, gestão e execução do trabalho que podem afetar negativamente a saúde dos trabalhadores.

O próprio Ministério do Trabalho cita como exemplos situações como:

  • excesso de demandas e sobrecarga de trabalho;
  • assédio de qualquer natureza;
  • falta de suporte ou apoio no trabalho;
  • problemas na organização das atividades;
  • condições inadequadas de gestão e relacionamento.

O Manual de Interpretação e Aplicação do capítulo 1.5 da NR-1 reforça que esses fatores devem ser tratados juntamente com os demais perigos e riscos existentes na organização.

Saúde mental passou a ser obrigatória no PGR?

É importante utilizar a terminologia correta.

A NR-1 não determina que a empresa faça um “diagnóstico de saúde mental” dos trabalhadores dentro do PGR.

O que passou a estar expressamente incluído no gerenciamento são os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

Essa diferença é fundamental.

O PGR deve avaliar as condições de trabalho que podem contribuir para danos à saúde, e não investigar a vida pessoal ou tentar descobrir quais funcionários possuem transtornos psicológicos.

A nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e consolidou essa obrigação dentro do GRO.

Pequenas empresas também precisam avaliar riscos psicossociais?

Sim. O tamanho da empresa não elimina a necessidade de prevenção.

O Ministério do Trabalho esclareceu em suas orientações sobre o tema que as organizações precisam considerar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho dentro das ações de prevenção previstas nas normas aplicáveis.

Naturalmente, a forma de realizar essa avaliação deve ser proporcional à realidade da empresa.

Uma organização com 20 funcionários não precisa copiar o mesmo processo utilizado por uma companhia com 10 mil empregados.

Em empresas menores, muitas vezes é possível obter informações importantes por meio da observação das atividades, entrevistas, participação dos trabalhadores, análise das jornadas e acompanhamento de indicadores internos.

Quais fatores devem ser observados?

Não existe uma lista única aplicável a todas as empresas. Os fatores dependem da atividade, da organização do trabalho e da realidade de cada setor.

Entre os aspectos que podem merecer avaliação estão:

  • volume excessivo de tarefas;
  • ritmo de trabalho intenso;
  • prazos incompatíveis com os recursos disponíveis;
  • metas excessivas;
  • falta de clareza sobre funções e responsabilidades;
  • baixo controle sobre a própria atividade;
  • falta de apoio das lideranças;
  • conflitos frequentes entre equipes;
  • assédio moral ou sexual;
  • violência no trabalho;
  • jornadas prolongadas;
  • trabalho noturno ou escalas inadequadas;
  • comunicação deficiente;
  • mudanças frequentes sem orientação adequada;
  • isolamento profissional;
  • falta de reconhecimento;
  • dificuldade de conciliar demandas simultâneas.

Esses fatores precisam ser avaliados dentro do contexto em que ocorrem.

Ter funcionários estressados significa que a empresa está irregular?

Não necessariamente.

A existência de estresse, ansiedade ou qualquer outro problema de saúde em um trabalhador não demonstra, por si só, que a causa está no trabalho ou que a empresa deixou de cumprir suas obrigações.

A avaliação precisa verificar as condições de trabalho e os fatores que podem contribuir para riscos.

Por exemplo, um setor pode apresentar:

  • metas muito elevadas;
  • quadro reduzido de funcionários;
  • horas extras frequentes;
  • elevada rotatividade;
  • conflitos com a liderança;
  • aumento de afastamentos.

Esses elementos, analisados em conjunto, podem indicar que existe uma situação organizacional que precisa ser investigada e tratada.

Risco psicossocial é a mesma coisa que burnout?

Não.

O burnout é uma condição de saúde relacionada ao contexto ocupacional e deve ser avaliado clinicamente por profissionais habilitados.

Já os riscos psicossociais estão relacionados às condições e à organização do trabalho.

Uma empresa pode identificar fatores como sobrecarga persistente, falta de autonomia ou jornadas excessivas antes mesmo que exista qualquer diagnóstico entre os trabalhadores.

Esse é justamente um dos objetivos da prevenção: agir sobre as causas organizacionais antes que ocorram consequências mais graves.

Como identificar riscos psicossociais na prática?

Não existe uma única ferramenta obrigatória para todas as empresas.

A metodologia deve ser adequada à organização, à complexidade das atividades e aos riscos existentes.

Algumas fontes de informação podem ajudar:

  • observação do trabalho real;
  • entrevistas com trabalhadores;
  • conversas com gestores;
  • avaliações ergonômicas;
  • questionários tecnicamente adequados;
  • registros de acidentes;
  • indicadores de absenteísmo;
  • afastamentos;
  • rotatividade;
  • horas extras;
  • denúncias ou reclamações;
  • informações da CIPA, quando existente;
  • resultados do PCMSO.

A participação dos trabalhadores é especialmente importante porque determinados problemas não aparecem em documentos ou medições tradicionais.

É obrigatório aplicar questionário de saúde mental?

Não existe uma regra geral determinando que toda empresa precise aplicar um questionário específico de saúde mental aos seus funcionários.

A avaliação precisa identificar os fatores de risco relacionados ao trabalho.

Questionários podem ser utilizados como uma das ferramentas disponíveis, desde que sejam tecnicamente adequados e interpretados dentro de um processo mais amplo.

Utilizar apenas um formulário online e gerar automaticamente uma classificação de risco pode não representar adequadamente a realidade da empresa.

Também é importante preservar a confidencialidade das informações e evitar perguntas que invadam desnecessariamente aspectos pessoais dos trabalhadores.

Quem pode realizar a avaliação dos riscos psicossociais?

A escolha dos profissionais e das metodologias deve considerar a natureza da avaliação e as competências técnicas envolvidas.

O gerenciamento de riscos é um processo multidisciplinar.

Dependendo da empresa, podem participar profissionais de:

  • Segurança do Trabalho;
  • Medicina do Trabalho;
  • Ergonomia;
  • Psicologia;
  • Recursos Humanos;
  • gestão de pessoas;
  • outros profissionais com competência relacionada ao processo avaliado.

O importante é evitar avaliações superficiais realizadas apenas para produzir um documento.

Qual é a relação entre NR-1 e NR-17?

A avaliação dos fatores psicossociais deve ser entendida em conjunto com a gestão ergonômica do trabalho.

A NR-17 trata da adaptação das condições de trabalho às características dos trabalhadores e inclui aspectos relacionados à organização do trabalho.

Por isso, a Avaliação Ergonômica Preliminar — AEP — e, quando necessária, a Análise Ergonômica do Trabalho — AET — podem fornecer informações importantes para o gerenciamento dos riscos psicossociais.

O objetivo é compreender como o trabalho acontece na prática.

O que é um exemplo de risco psicossocial?

Considere um setor comercial com dez funcionários.

A empresa aumenta significativamente as metas, mas não aumenta o número de trabalhadores nem fornece novas ferramentas.

A equipe começa a trabalhar frequentemente além do horário, recebe cobranças constantes e possui pouca autonomia para reorganizar as atividades.

Nesse cenário, podem existir fatores relacionados a:

  • sobrecarga;
  • ritmo excessivo;
  • pressão por metas;
  • jornada prolongada;
  • baixo controle sobre o trabalho.

A medida preventiva não deveria se limitar a oferecer uma palestra sobre saúde mental.

Seria necessário avaliar as causas do problema e considerar mudanças na organização do trabalho.

Palestras sobre saúde mental resolvem a NR-1?

Sozinhas, não.

Palestras, campanhas e ações de conscientização podem ser úteis, mas não substituem a identificação, avaliação e controle dos riscos.

Se o problema é uma carga de trabalho incompatível com a equipe disponível, por exemplo, uma palestra sobre gerenciamento do estresse não elimina a origem do risco.

A medida de prevenção precisa atuar sobre o trabalho.

Dependendo do diagnóstico, as ações podem incluir:

  • redimensionamento das equipes;
  • revisão de metas;
  • mudanças nas jornadas;
  • melhoria dos processos;
  • definição clara de responsabilidades;
  • capacitação das lideranças;
  • criação de canais seguros para denúncias;
  • prevenção e combate ao assédio;
  • melhoria da comunicação;
  • aumento do suporte às equipes.

O RH é responsável sozinho pelos riscos psicossociais?

Não.

Embora o RH tenha participação importante, muitos fatores dependem diretamente da forma como a organização é administrada.

Isso envolve:

  • alta direção;
  • gestores;
  • supervisores;
  • Recursos Humanos;
  • Segurança do Trabalho;
  • Medicina do Trabalho;
  • trabalhadores.

Uma política de prevenção dificilmente será efetiva se o RH propõe mudanças, mas as lideranças mantêm práticas incompatíveis com essas medidas.

Como incluir riscos psicossociais no PGR?

O processo pode ser organizado em etapas.

1. Conhecer a organização do trabalho

Antes de aplicar qualquer ferramenta, é necessário compreender atividades, jornadas, metas, responsabilidades, processos e relações entre setores.

2. Identificar os fatores de risco

Devem ser observadas situações capazes de causar danos à saúde relacionadas à organização do trabalho.

3. Avaliar os riscos

A empresa precisa analisar a exposição e determinar quais situações exigem prioridade.

4. Registrar no processo de gerenciamento

Os riscos identificados devem ser integrados aos registros de gerenciamento conforme os requisitos aplicáveis ao PGR.

5. Elaborar medidas de prevenção

As ações precisam responder aos problemas encontrados.

6. Definir responsáveis e prazos

Medidas sem responsável e sem prazo tendem a permanecer apenas no papel.

7. Acompanhar os resultados

Depois da intervenção, é necessário verificar se o risco diminuiu ou se novas medidas são necessárias.

Como o PCMSO pode ajudar?

PGR e PCMSO precisam estar integrados.

A Medicina do Trabalho pode identificar informações relevantes ao analisar, de forma coletiva e preservando o sigilo médico, tendências relacionadas à saúde dos trabalhadores.

Alguns indicadores podem merecer atenção:

  • aumento de afastamentos;
  • repetição de determinadas queixas;
  • crescimento do absenteísmo;
  • concentração de problemas em determinado setor;
  • acidentes associados à fadiga;
  • dificuldades recorrentes de retorno ao trabalho.

Esses dados não devem ser utilizados para expor trabalhadores individualmente, mas podem ajudar a empresa a compreender tendências e revisar medidas de prevenção.

E o sigilo médico?

O sigilo das informações de saúde continua sendo fundamental.

A empresa não deve receber diagnósticos individuais indiscriminadamente apenas porque está avaliando riscos psicossociais.

Informações clínicas precisam ser tratadas conforme os deveres profissionais e as regras aplicáveis à proteção de dados.

O empregador pode trabalhar com informações necessárias à gestão ocupacional e indicadores coletivos sem ter acesso indevido ao conteúdo confidencial das consultas.

Quais erros as pequenas empresas devem evitar?

Com a entrada em vigor das novas regras, surgiu também uma grande quantidade de soluções prometendo resolver a NR-1 rapidamente.

Alguns erros devem ser evitados:

  • comprar um questionário e considerar o processo concluído;
  • copiar o PGR de outra empresa;
  • incluir uma lista genérica de riscos psicossociais;
  • tratar saúde mental apenas com palestras;
  • diagnosticar trabalhadores por meio do PGR;
  • ignorar a participação dos colaboradores;
  • identificar riscos sem criar medidas de prevenção;
  • deixar o assunto exclusivamente sob responsabilidade do RH;
  • não acompanhar se as ações implantadas tiveram resultado.

Uma PME precisa contratar psicólogo permanentemente?

Não existe uma regra geral na NR-1 estabelecendo que toda pequena ou média empresa precise manter um psicólogo permanentemente contratado apenas para cumprir o gerenciamento de riscos psicossociais.

A necessidade de profissionais deve ser analisada conforme a atividade, a estrutura da empresa, os riscos encontrados e o tipo de intervenção necessária.

Em determinadas situações, a participação de psicólogos ou outros especialistas pode ser tecnicamente recomendável.

Em outras, alterações de gestão, ergonomia e organização do trabalho podem ser conduzidas por uma equipe multidisciplinar com diferentes competências.

Como começar sem transformar o processo em algo complexo?

Para pequenas e médias empresas, um bom ponto de partida é organizar o que já existe.

A empresa pode revisar:

  • PGR atual;
  • PCMSO;
  • AEP e AET, quando existentes;
  • jornadas e horas extras;
  • indicadores de afastamentos;
  • rotatividade;
  • acidentes;
  • estrutura de cargos;
  • processos de denúncia;
  • treinamento das lideranças;
  • relatos dos trabalhadores.

Depois disso, é possível identificar onde estão as principais lacunas e estabelecer prioridades.

Saúde mental no trabalho deve ser tratada como prevenção

A principal mudança de visão é deixar de agir somente quando um trabalhador adoece.

Gerenciar riscos psicossociais significa analisar antecipadamente condições do trabalho capazes de gerar problemas e buscar maneiras de reduzi-las.

Para pequenas e médias empresas, isso não precisa significar criar uma estrutura burocrática ou extremamente cara.

O processo precisa ser proporcional, tecnicamente adequado e efetivamente aplicado.

Como médico do trabalho, entendo que a integração entre gestão de riscos, Medicina do Trabalho, ergonomia, Recursos Humanos e liderança é mais efetiva do que tratar cada área isoladamente.

Gestão de riscos psicossociais e NR-1 para empresas

A Opus Saúde auxilia empresas na organização das ações de Saúde Ocupacional relacionadas ao PGR, PCMSO e acompanhamento dos trabalhadores.

O suporte pode envolver:

  • revisão do PGR;
  • integração entre PGR e PCMSO;
  • orientação sobre fatores de riscos psicossociais;
  • análise de indicadores ocupacionais;
  • avaliações ergonômicas;
  • gestão de exames ocupacionais;
  • acompanhamento de afastamentos;
  • gestão de absenteísmo;
  • orientação técnica para RH e gestores;
  • ações de Medicina do Trabalho.

Compartilhe este artigo:

Opus Saúde

Sobre o autor:

A Opus Saúde é referência em tratamentos para dependência química, alcoolismo e transtornos emocionais. Contamos com equipe qualificada e estrutura completa, promovendo a recuperação com respeito à história de cada paciente.

Desde a fundação, a Opus Saúde já acolheu centenas de pessoas, oferecendo tratamento, esperança e novos propósitos de vida, com terapias modernas e protocolos personalizados.

Com ações preventivas, terapias e suporte pós-tratamento, a Opus Saúde segue comprometido com o bem-estar de cada paciente. Acesse nosso site e conheça mais.

Precisa de ajuda?
Este site usa cookies do Google para fornecer serviços e analisar tráfego.Saiba mais.